Do outro lado da linha



Deitada em minha cama em uma madrugada de inverno, numa noite qualquer eu estava a pensar como a vida pode ser surpreendentemente boa ou ruim. Na maioria das vezes somos pegos de surpresa. Como aconteceu comigo nesta mesma noite. Estava eu viajando pelas minhas lembranças, quando às quatro da manhã meu celular toca com um número não identificado, não sabia se eu deveria ou não atender aquela chamada até então estranha para mim, mais tomei coragem a atendi. Do outro lado da linha falava uma voz rouca de um homem que me parecia estar contente por estar falando comigo. Dizia que há tempos não me encontrava e que estava com saudades dos velhos tempos. E, eu ainda na expectativa de saber quem era o dono daquela linda voz rouca. Pensei em todos os meus amigos e até conhecidos que nunca me ligavam, porém sem nenhum sucesso, agradeci aos elogios me dado por ele e perguntei: Desculpa mais como você se chama? Não consigo identificar a sua voz. Ele respondeu-me: Sou o homem que um dia tomou conta do seu coração, tirou-lhe alguns suspiros do peito e lhe fiz feliz por muitos anos. Não se lembras de mim? E, com uma voz triste de disse seu nome. Chamo-me Miguel. Seu único e grande amor. Mas, pelo visto não sou mais tão importante pra você. Eu, num estado de extasse, fiquei uns minutos em completo silêncio. E, em meu pensamento passavam-se como um trailer de filmes românticos americanos as cenas da nossa história de amor que não teve um final feliz. Foram tantos anos ao lado daquele homem, anos felizes que eu pensava que seriam para sempre. Até que em uma tarde estávamos fazendo um famoso piquenique romântico, estava tudo indo bem. Estávamos sorridentes e havia muito amor em nós. Até que ele se levanta, diz que irá comprar uma flor para mim e nunca mais volta. Mas, não sinto mágoa dele. Pois, no fundo eu sabia que aquilo tudo chegaria ao fim. Pois a nossa vida era muito previsível, e nós nunca gostamos dessa previsão ao nosso redor. Deis anos se passaram desde aquela tarde. Não tinha notícias dele desde então, apenas boatos de que ele estava feliz e realizado. Que haveria se casado com uma moça de descendência russa e que teria com ela uma linda filha chamada Misha. É estranho saber que o passado está sempre nos testando. Eu ali deitada em uma madrugada sem sono pensando nas coisas da vida e do nada um telefonema. Telefonema este que me fazia lembrar-se de momentos que já não me recordava. Bons momentos que eu sem querer havia apagado da minha memória. Ou estava trancado no fundo de um baú dentro das minhas lembranças mais puras. Não sei. Mas sei que aquele homem do outro lado da linha com uma respiração ofegante fez-me lembrar da inocência que havia em mim, da menina que se tornou uma mulher. Que amadureceu. Aprendeu a segurar o choro. Encheu-se de censuras e de medos. Perdeu-se da menina inocente que era quando estava ao seu lado. E, esqueceu-se que agente só precisa de um sorriso para melhorar nossos dias. As pessoas já não são tão legais, as tardes de domingo não são mais floridas e ensolaradas, as coisas não parecem tão simples e amar é muito mais complexo que um piquenique romântico em um parque. 


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